
Assessor da Pró-reitoria de Políticas e Assistência Estudantis (PR4) da Uerj e enredista da escola de samba campeã do Carnaval 2026, Unidos do Viradouro, João Gustavo Melo conta como seu amor e sua identificação com o carnaval influenciaram toda a sua trajetória de estudo e atuação, caminho que o levou ao enredo vencedor. Na Sapucaí, a agremiação de Niterói homenageou o mestre de bateria Ciça.
Nordestino e apaixonado pelo universo carnavalesco, João é pesquisador de enredo desde 2003, muito antes de ingressar na Universidade como servidor. Com graduação em Comunicação Social no Ceará e, posteriormente, mestrado e doutorado em Artes pela Uerj, ele comenta, nesta entrevista, o processo de escolha do tema e defende o samba-enredo como uma importante ferramenta pedagógica. Confira!
Você atua como assessor da PR4 e também como enredista da Unidos da Viradouro, escola campeã de 2026. Como essas duas frentes da sua vida se encontraram ao longo da sua trajetória?
Essa trajetória como pesquisador de enredo, ou enredista, já vem de longa data. Eu comecei em 2003, ou seja, já são 23 anos realizando esse trabalho. Aqui na Uerj, fiz mestrado e doutorado em Artes, e isso dialoga diretamente com a pesquisa, não só de enredo, mas com a pesquisa de forma mais ampla. Minha participação acadêmica me transformou, porque tive contato com uma série de conhecimentos, principalmente sobre a africanidade, que chegam à universidade e passam a integrar os assuntos trabalhados em sala de aula.
Em 2023, ingressei no serviço público como servidor e, na PR4, desenvolvemos também o trabalho de políticas de assistência estudantil voltadas a pessoas em vulnerabilidade social e estudantes cotistas. Isso nos aproxima muito do que chamamos de Brasil real, de uma cidade muito partida, porque você tem um estudante dentro de um espaço privilegiado de ensino que, muitas vezes, vive uma realidade bastante precarizada. De alguma forma, conseguimos desenvolver aqui um olhar mais sensível para essas questões.
O serviço público me deu a possibilidade de estar mais próximo de realidades que muitas vezes não são as nossas e, ao mesmo tempo, de desenvolver enredos que também sejam inspiração nesse sentido. A ideia é que a universidade se torne um trampolim, um instrumento de transformação de vida, de visão de mundo, de novas reflexões e possibilidades, assim como é a escola de samba. Para mim, houve um complemento: tanto o carnaval, em sua dimensão psicossocial e como lazer integrador, está presente também como forma de assistência, não uma assistência ativa, mas uma assistência que congrega o folião por meio da arte, em que cada pessoa na avenida se torna artista.
Como foi seu início como enredista, sua relação com a Viradouro e quando surgiu sua paixão pelo Carnaval?
Eu comecei em 2003, mas antes disso já tinha uma relação muito forte com o carnaval. Sou cearense, morei no Ceará até a minha graduação, me formei em Comunicação Social, em Jornalismo, em Fortaleza, e depois vim para o Rio de Janeiro tentar a vida. Desde os 11 anos eu já era apaixonado pelo carnaval, assistia aos desfiles pela televisão e ficava o ano inteiro esperando aquilo acontecer de novo. Tentava entender como funcionavam os enredos, como histórias às vezes simples ganhavam uma dimensão épica na avenida. Isso me fascinava.
Com 13 anos eu já treinava escrever sinopses, ficava exercitando a escrita, e isso acabou desenvolvendo muito a minha formação. Posso dizer que o carnaval me ajudou a ser um estudante melhor, me ajudou a passar no vestibular e também influenciou toda a minha trajetória acadêmica. Meu TCC foi sobre “Ratos e Urubus, Larguem Minha Fantasia”, desfile da Beija-Flor de 1989, e, no doutorado, pesquisei Parintins e o carnaval do Rio, analisando o fazer alegórico das escolas de samba.
Quando eu vim para o Rio, eu já tinha contatos no Salgueiro desde Fortaleza, porque eles gostavam dos textos que eu produzia. Acabei sendo absorvido pela diretoria cultural da escola. Fui diretor cultural do Salgueiro e participei da diretoria por 19 anos, de 1998 até 2017.
Em 2002, para o Carnaval de 2003, o Salgueiro comemorava 50 anos e todo o departamento cultural se mobilizou para construir o enredo. Em paralelo, o carnavalesco da Viradouro na época, Mauro Quintaes, que é um grande amigo até hoje, estava desenvolvendo um enredo sobre Bibi Ferreira e me chamou para escrever. Foi ali minha primeira experiência como enredista solo.
A partir de 2003, eu passei a atuar meio que em paralelo: estava oficialmente no Salgueiro, mas também colaborando com a Viradouro. Então meu início como enredista se deu dessa forma, dividido entre as duas escolas.
Como foi o processo de construção do enredo campeão? O que inspirou vocês nesse processo de criação?
Todo desfile e todo enredo têm uma parte visual, alegorias e fantasias, e uma parte escrita, que envolve sinopse, defesa para os jurados e justificativa do enredo. Tudo isso vai sendo desenvolvido ao longo do ano e depois é reunido no chamado Livro Abre-Alas, que segue para o julgamento. A sinopse vai para os compositores criarem o samba. É o primeiro texto a ser feito, e essa parte é minha. Mas, antes dela, a gente faz a roteirização, que é um trabalho conjunto entre o carnavalesco e eu.
Geralmente, a diretoria da Viradouro pede ao carnavalesco com quem trabalho e a mim algumas sugestões de enredo. A partir daí começam as discussões. No ano passado, por exemplo, tínhamos oito propostas na mesa, que agradaram bastante ao presidente. Quem bate o martelo é o diretor executivo, Marcelo Calil, e ele lançou: “Mas e se a gente fizesse uma homenagem ao Ciça?”. Naquele momento, as outras oito ideias praticamente caíram, porque vimos que esse enredo seria muito importante para a escola.
Depois descobrimos que o Ciça completaria 70 anos em 2026, justamente no ano em que a Viradouro faz 80. Não tinha combinação melhor. A partir dessas coincidências, fomos desenvolvendo o enredo desde o berço do samba e o berço dele, que é o Estácio, contando a trajetória dele dentro do carnaval. Para a gente, foi um processo maravilhoso.
Na sua visão, qual é a importância cultural e simbólica de um enredo de escola de samba hoje, especialmente para a valorização de histórias e identidades?
Tem um livro que foi lançado pelo Luiz Antônio Simas e Fábio Fabato, que se chama “Pra tudo começar na quinta-feira: o enredo dos enredos”. Esse livro tem definições muito importantes, entre elas a de colocar o enredo como uma ferramenta pedagógica, mas não uma pedagogia só da escola formal, mas uma pedagogia de levar aspectos de um Brasil que nem sempre é publicizado. Ao lançarmos a lupa sobre o Ciça, por exemplo, começamos a desenvolver a história de vida dele, a trajetória de vida de um dos principais mestres e músicos do Brasil.
E essa é a função do enredo. Trazer histórias, episódios, análises ou reflexões sobre um Brasil que muitas vezes se desconhece. E, a partir disso, é nossa missão reorganizar o imaginário do país, trazendo esses mestres, fazendo essas histórias, esses episódios que são para nós algo muito importante e que é uma missão civilizatória também.


